MELHORIA CONTINUA
Ele se atirou de costas
na parede largando todos aqueles 120kg no chão.
Em seguida apertou com os
dedos os olhos e foi descendo limpando o suor do nariz.
O calor era de fuder, e o
vento trazia o cheiro podre de algum animal morto que ele não sabia
onde estava.
Somente uma brisa abafada
pelo mormaço lhe fazia companhia.
Era um patio enorme e
lotado de carros recém-chegados da fabrica.
Em um canto perto da
cantina, um pavilhão de madeira que mais parecia uma panela quente,
estavam três colegas. Era possível ouvir os múrmuros e algumas
risadas de longe.
Mas não estavam falando
dele, não desta vez.
Ele abriu uma sacola e
de dentro retirou metade de um cachorro quente.
Sempre de regime, sempre.
Vestia um macacão
branco.
Completamente podre de
sujo.
Todos usavam macacões
assim.
Ele trabalhava em uma
multinacional famosa e eles diziam que o branco era pra mostrar
transparência.
Que era diferente, era,
nenhuma outra oficina tinha macacões brancos.
Agora o que eles queriam
transparecer, ninguém entedia. Talvez fosse a sujeira!
Enquanto comia observava
o velho responsável por todos ali, ele era uma espécie de gerente.
Tinha uma cara de louco e
estava sentado em uma cadeira branca de plástico em baixo do sol,
sol de 38 graus. Puta que pariu! 38 graus! O velho fumava um cigarro e
olhava pro nada como se estivesse no inferno. Estava com uma camisa
social de mangas compridas e uma gravata preta, tinha gel no cabelo e
um sapato já bem usado. O velho estava lá, fumando um cigarro,
feito um louco.
Dois colegas seus saíram
da cantina trocando tapas e dando risada.
Ele estava na metade da
metade do cachorro quente.
Já bem perto um deles,
apelidado Cowboy, gritou:
— E ai gordo, o que tem
de bom ai.
Ele fechou a cara e
começou olhar para baixo:
— Cachorro-quente. —
respondeu.
— De novo, puta que
pariu hein! É foda não ter mulher! — Disse isso e começou a rir.
O outro riu. Logo estavam
sentados ao lado dele:
— Bateu quantas hoje
gordo? — Perguntou Cowboy.
— Não enche Cowboy. —
Respondeu olhando pra baixo e ainda de cara fechada.
O baixinho continuou a
conversa:
— Escuta gordo a gente
não tem culpa se tu não pode enxergar teu pau.
— È – Acrescentou,
Cowboy rindo.
O que o nosso amigo devia
fazer era enfrentá-los, mas ele não conseguia nem sequer olhar no
rosto deles. Continuava la, de cabeça baixa, 120 kg de vergonha:
— Escuta gordo, tu nunca comeu ninguém? — Perguntou Cowboy cutucando o baixinho ao lado.
Nosso amigo continuou
calado:
— Hum, quem cala
consente hein – disse o baixinho.
Alguns outros colegas
chegaram, deviam ser uns cinco, formaram um circulo em sua volta
todos de pé. O nome de um deles era Nilo. E ele perguntou a Cowboy:
— Tá e ai Cowboy,
qualé que vai ser?
— E ai! To aqui
trocando uma ideia com o nosso amigo gordo — respondeu Cowboy:
— Tá e ai gordo, vai
compra ou não vai comprar um sutiã? — disse Nilo.
Todos começaram a rir,
riam sem parar. Nilo acrescentou:
— Olha ali, se o cara
corta um pedaço da teta desse gordo da pra acaba com a fome da
Africá.
As risadas aumentavam e
nosso amigo começava a ficar enjoado:
— Hein gordo, minha
sogra de repente tem um sutiãs pra te vende – disse um negro alto
mais ao canto:
— Tá mas será que vai
cabe nessa jamanta, negão? — Perguntou Cowboy
— Pois é, também tem
isso né.— e seguiu rindo.
Nosso amigo começou a se
levantar. Era um esforço para ele fazer isso.
Todos pararam de rir e um
silencio se fez. Ele não queria olhar para a cara deles mas podia
imaginar quais seriam. Suas costas doíam e ele colocava toda a força
do corpo em um só braço.
Quando já estava quase
de pé deixou cair uma garrafa com o resto de refrigerante no chão:
— Tá loco! —
Exclamou Cowboy.
Logo todos, aos poucos,
voltaram ao trabalho.
Nosso amigo gordo ainda
teria a tarde inteira.
A pior parte era na hora
de se trocar no vestiário, onde ficavam todos reunidos.
As vezes seu desodorante
não funcionava, bem, seus colegas percebiam isso.