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quarta-feira, 21 de agosto de 2013


MELHORIA CONTINUA


Ele se atirou de costas na parede largando todos aqueles 120kg no chão.
Em seguida apertou com os dedos os olhos e foi descendo limpando o suor do nariz.
O calor era de fuder, e o vento trazia o cheiro podre de algum animal morto que ele não sabia onde estava.
Somente uma brisa abafada pelo mormaço lhe fazia companhia.
Era um patio enorme e lotado de carros recém-chegados da fabrica.
Em um canto perto da cantina, um pavilhão de madeira que mais parecia uma panela quente, estavam três colegas. Era possível ouvir os múrmuros e algumas risadas de longe.
Mas não estavam falando dele, não desta vez.
Ele abriu uma sacola e de dentro retirou metade de um cachorro quente.
Sempre de regime, sempre.
Vestia um macacão branco.
Completamente podre de sujo.
Todos usavam macacões assim.
Ele trabalhava em uma multinacional famosa e eles diziam que o branco era pra mostrar transparência.
Que era diferente, era, nenhuma outra oficina tinha macacões brancos.
Agora o que eles queriam transparecer, ninguém entedia. Talvez fosse a sujeira!
Enquanto comia observava o velho responsável por todos ali, ele era uma espécie de gerente.
Tinha uma cara de louco e estava sentado em uma cadeira branca de plástico em baixo do sol, sol de 38 graus. Puta que pariu! 38 graus! O velho fumava um cigarro e olhava pro nada como se estivesse no inferno. Estava com uma camisa social de mangas compridas e uma gravata preta, tinha gel no cabelo e um sapato já bem usado. O velho estava lá, fumando um cigarro, feito um louco.
Dois colegas seus saíram da cantina trocando tapas e dando risada.
Ele estava na metade da metade do cachorro quente.
Já bem perto um deles, apelidado Cowboy, gritou:
— E ai gordo, o que tem de bom ai.
Ele fechou a cara e começou olhar para baixo:
— Cachorro-quente. — respondeu.
— De novo, puta que pariu hein! É foda não ter mulher! — Disse isso e começou a rir.
O outro riu. Logo estavam sentados ao lado dele:
— Bateu quantas hoje gordo? — Perguntou Cowboy.
— Não enche Cowboy. — Respondeu olhando pra baixo e ainda de cara fechada.
O baixinho continuou a conversa:
— Escuta gordo a gente não tem culpa se tu não pode enxergar teu pau.
— È – Acrescentou, Cowboy rindo.
O que o nosso amigo devia fazer era enfrentá-los, mas ele não conseguia nem sequer olhar no rosto deles. Continuava la, de cabeça baixa, 120 kg de vergonha:
— Escuta gordo, tu nunca comeu ninguém? — Perguntou Cowboy cutucando o baixinho ao lado.
Nosso amigo continuou calado:
— Hum, quem cala consente hein – disse o baixinho.
Alguns outros colegas chegaram, deviam ser uns cinco, formaram um circulo em sua volta todos de pé. O nome de um deles era Nilo. E ele perguntou a Cowboy:
— Tá e ai Cowboy, qualé que vai ser?
— E ai! To aqui trocando uma ideia com o nosso amigo gordo — respondeu Cowboy:
— Tá e ai gordo, vai compra ou não vai comprar um sutiã? — disse Nilo.
Todos começaram a rir, riam sem parar. Nilo acrescentou:
— Olha ali, se o cara corta um pedaço da teta desse gordo da pra acaba com a fome da Africá.
As risadas aumentavam e nosso amigo começava a ficar enjoado:
— Hein gordo, minha sogra de repente tem um sutiãs pra te vende – disse um negro alto mais ao canto:
— Tá mas será que vai cabe nessa jamanta, negão? — Perguntou Cowboy
— Pois é, também tem isso né.— e seguiu rindo.
Nosso amigo começou a se levantar. Era um esforço para ele fazer isso.
Todos pararam de rir e um silencio se fez. Ele não queria olhar para a cara deles mas podia imaginar quais seriam. Suas costas doíam e ele colocava toda a força do corpo em um só braço.
Quando já estava quase de pé deixou cair uma garrafa com o resto de refrigerante no chão:
— Tá loco! — Exclamou Cowboy.
Logo todos, aos poucos, voltaram ao trabalho.
Nosso amigo gordo ainda teria a tarde inteira.
A pior parte era na hora de se trocar no vestiário, onde ficavam todos reunidos.
As vezes seu desodorante não funcionava, bem, seus colegas percebiam isso.





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