O FRIO, O ESCURO E O VENTO.
Quem sabe o que acontece em um terreno
baldio afastado da cidade ás 23:07 da noite?
Quem pode dizer o que faz os cães
latirem e uivarem?
Ninguém pode dizer nada sobre aquele
casal, aparentemente feliz, do apartamento 204.
Ninguém vê o que se passa dentro da
cabeça de dona Matilde, entrevada em uma cadeira de rodas olhando
para o nada, com um sorriso leve e debochado, enquanto seus netos
perturbam o sossego dos vizinhos.
Ninguém viu você ontem a noite
enquanto uma chuva fina caia sobre os telhados sem fazer barulho,
silenciosa como um bandido.
Deitado entre os pais um garotinho
sente-se seguro.
Ele está longe de tudo aquilo que não
sabe que existe.
Tudo que o aguarda.
Ninguém conhece a solidão daquele
velho sujo e pançudo que mora na oficina para a segurança
patrimonial do patrão.
Você não sabe a que horas o
açougueiro dorme, como ele dorme ou se ele dorme.
Você não pode traduzir os gemidos e
miados dos gatos da madrugada.
Ouvem-se rumores e histórias.
Algumas viram lendas.
Muitas não chegam a luz da realidade,
ao conhecimento do público.
Longe da hospitalidade fria dos
hospitais, muitos outros sofrem.
Ouvem-se os aviões.
O aeroporto é perto.
Cercado de mato.
Por vezes a noite faz-se uma fogueira,
sim, existe alguém no escuro.
Existe alguém no mato.
Tanto faz quem seja.
Ninguém quer descobrir.
O que esta perdido vaga por ai.
Mas já esqueceu que ainda vive.
E esquecer da vida é pior do que
morrer.
Você não para pra pensar quantos e
quantos a madrugada já devorou.
O vento frio e a chuva rala são um
anúncio.
O cheiro do ar não é o mesmo de
sessenta anos atrás.
Muita coisa mudou.
Os ladroes não roubam mais galinhas.
Os velhos já notaram isso.
Os jovens se arriscam.
Muitos não voltam pra casa.
Outros nem querem voltar.
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