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terça-feira, 20 de agosto de 2013

O FRIO, O ESCURO E O VENTO.

Quem sabe o que acontece em um terreno baldio afastado da cidade ás 23:07 da noite?
Quem pode dizer o que faz os cães latirem e uivarem?
Ninguém pode dizer nada sobre aquele casal, aparentemente feliz, do apartamento 204.
Ninguém vê o que se passa dentro da cabeça de dona Matilde, entrevada em uma cadeira de rodas olhando para o nada, com um sorriso leve e debochado, enquanto seus netos perturbam o sossego dos vizinhos.
Ninguém viu você ontem a noite enquanto uma chuva fina caia sobre os telhados sem fazer barulho, silenciosa como um bandido.
Deitado entre os pais um garotinho sente-se seguro.
Ele está longe de tudo aquilo que não sabe que existe.
Tudo que o aguarda.
Ninguém conhece a solidão daquele velho sujo e pançudo que mora na oficina para a segurança patrimonial do patrão.
Você não sabe a que horas o açougueiro dorme, como ele dorme ou se ele dorme.
Você não pode traduzir os gemidos e miados dos gatos da madrugada.
Ouvem-se rumores e histórias.
Algumas viram lendas.
Muitas não chegam a luz da realidade, ao conhecimento do público.
Longe da hospitalidade fria dos hospitais, muitos outros sofrem.
Ouvem-se os aviões.
O aeroporto é perto.
Cercado de mato.
Por vezes a noite faz-se uma fogueira, sim, existe alguém no escuro.
Existe alguém no mato.
Tanto faz quem seja.
Ninguém quer descobrir.
O que esta perdido vaga por ai.
Mas já esqueceu que ainda vive.
E esquecer da vida é pior do que morrer.
Você não para pra pensar quantos e quantos a madrugada já devorou.
O vento frio e a chuva rala são um anúncio.
O cheiro do ar não é o mesmo de sessenta anos atrás.
Muita coisa mudou.
Os ladroes não roubam mais galinhas.
Os velhos já notaram isso.
Os jovens se arriscam.
Muitos não voltam pra casa.
Outros nem querem voltar.



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