DO AVESSO
Escrever é fácil.
Difícil é viver de verdade.
Eu sou o avesso do poema.
Eu falo das flores murchas.
Da sujeira das ruas.
Da poluição dos carros.
De domingos nublados.
E não me importo se rima.
Se ficou bonito.
Eu não sou bonito.
Alias... quase ninguém é.
Tente ver o poema no rosto triste de
uma criança sendo maltratada.
Na fome através de um corpo seco.
Na senhora gorda, já velha, pedindo
esmola.
Podia ser sua mãe.
O poema do centro.
Cinza e sujo.
Completamente doentio.
A facilidade de se passar por um
esfomiado, viciado, morrendo lentamente feito um rato envenenado e
não se chocar, é toda a nossa poesia.
Os cavalos maltratados com o lombo
doido.
As carroças lotadas de lixo.
Pessoas vendendo lixo, por centavos.
Pessoas comendo lixo por fome.
Toma, ta ai a grande poesia.
Todo poema é fantasia.
Não passa de uma mentira bonita.
Eis aqui a realidade.
Eis aqui o poema.
Comparado a esse mundo, nos vamos viver
pouco camarada.
Esta ai algo positivo.
É um grande alívio pensar assim.
A maioria pensa em Deus, mas ele não
passa de um poema.
Um poema mal contado.
Quanta mentira a nesse mundo.
Quanta lorota.
Tudo para fugirmos da verdade.
Para poder esquecer o feio, nós
inventamos o belo.
E esquecemos de nós mesmos.
E já não sabemos mais quem somos.
Já não passamos de um sonho, perdido
na realidade.
Escrever é fácil.
Refletir também.
Eis aqui o poema verdadeiro.
Bem diferente de toda fantasia de nossa
cabeça doente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário